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domingo, 7 de março de 2010

OS TOLOS, OS VIGARISTAS E AS PESSOAS DE BEM

Ponto de vista - Artigo
OS TOLOS, OS VIGARISTAS E AS PESSOAS DE BEM

Leandro de Castro Siqueira
Mestre em Ecologia pela Universidade de Brasília - UnB

Quando se assiste a debates cuja temática é o meio ambiente, já se tornou corriqueiro ouvir que nessa área as pessoas se dividem em três tipos: os tolos, os vigaristas e as pessoas de bem. Essa expressão passou a ser repetida regularmente para fundamentar as posições de quem a usa, independente de quais argumentos essa pessoa defenda. Uma reflexão sobre esse tema talvez seja bem útil no debate sobre a questão ambiental. Quem seriam os tolos, os vigaristas e as pessoas de bem?
Nas discussões sobre meio ambiente, invariavelmente todos se apresentam como sendo as pessoas de bem. Suas motivações e seus anseios são sempre os mais nobres, verdadeiros e, claro, voltados para o bem comum, principalmente dos mais carentes e vulneráveis. Todos aqueles que apoiam suas idéias são consideradas também pessoas de bem. Já os adversários seriam os vigaristas, cujos pontos de vista são apresentados como sórdidos, corrompidos, desfundamentados e dissimulados, pois representariam interesses de agentes poderosos e ocultos. Os tolos seriam todos aqueles que, sem perceber os motivos torpes dos vigaristas, apoiariam esses últimos por ingenuidade e ignorância. Numa estrutura como essa, todos poderiam ser considerados como tendo o papel de pessoas de bem, de vigaristas ou de tolos, dependendo de quem estiver atribuindo o título. Seria bem difícil chegar a algum lugar assim, não? Essa é uma das razões pelas quais o tratamento das questões ambientais é tão complicado.
Achar que o ponto de vista próprio é o único legítimo, nas situações em geral, e não só nas que envolvem o meio ambiente, cria impasses, os quais demoram para ser resolvidos, quando o são. Mas quando se estabelece o diálogo verdadeiro e se busca assimilar e compreender a perspectiva das demais partes, a solução tende a ser mais rápida e até eficiente.
Uma das razões por que as soluções costumam ser mais rápidas com o uso do diálogo, em vez do conflito, é que os objetivos de cada parte, que podem não estar claros no começo das negociações, passam a ficar explícitos. Dessa forma, os argumentos contrários podem ser objetivamente contestados e negociados, sendo possível até mesmo encontrar objetivos comuns. Todos cedem um pouco e, ao mesmo tempo, têm parte de suas demandas acolhidas. A solução nesses casos tende a ser mais efetiva, já que se leva em consideração o problema sob vários enfoques diferentes, isto é, de forma mais completa. Com esse procedimento, os interessados em buscar soluções para os problemas ambientais percebem que pode haver pessoas de bem como adversários, e que essas pessoas podem ter argumentos interessantes e importantes.
Esse procedimento também permite perceber quando se está lidando com os vigaristas, cujo interesse é que o problema ambiental não seja realmente resolvido. Eles tentam passar a imagem de que estão negociando de modo firme, enquanto escondem sua inflexibilidade, arrogância e falta de cooperação. Ao mesmo tempo desqualificam seus adversários, anunciando que os mesmos é que não estão dispostos a ceder, que seus interesses são condenáveis, etc. Quando seus adversários estão mais frágeis, os vigaristas podem conseguir impor seus objetivos. Quando ambas as partes têm poderes equivalentes na negociação, essa tática cria resistência, e o resultado é o impasse, o que muitas vezes beneficia os interesses dos vigaristas. De qualquer forma, o resultado é insatisfatório para efetivamente dar uma solução ao problema ambiental.
Quanto aos tolos, aqueles que adotam a ideologia que lhes é apresentada e a defendem sem ter consciência dos reais interesses envolvidos, esses sempre existiram e sempre existirão. Eles são a massa de manobra dos atores que têm o poder para disseminar e impor seus sistemas de idéias, seja por meio de instituições e organizações, seja pelos dos meios de comunicação. E o pior é que muitas vezes até nós mesmos não temos noção do quanto nosso modo de agir e de pensar sofre esse tipo de influência.
Felizmente, um dos antídotos capazes de atenuar esse problema é a informação, o que atualmente é possível obter de forma bem mais fácil que no passado. A democracia no acesso à informação produzida pela Internet faz com que os vários pontos de vista relativos a um assunto possam ser divulgados de forma plural e sem censura. Dessa maneira, evitam-se os obstáculos gerados pela influência dos poderes político, econômico e até mesmo religioso sobre os meios de comunicação tradicionais como jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão.
Entretanto, é indispensável o uso de altas doses de discernimento para avaliar as informações a que se tem acesso. Como todos podem expressar suas ideias, as informações legítimas encontram-se lado a lado com uma grande quantidade de bobagem e de informações distorcidas cujo objetivo é desorientar. Nem mesmo as informações provenientes de meios acadêmicos são totalmente confiáveis, já que também podem apresentar tendenciosidade decorrente dos vários tipos de influência a que estão passíveis.
A influência dos vigaristas sobre a massa de ingênuos é perniciosa ao meio ambiente. Cabe ao terceiro tipo de pessoas desse conjunto, as pessoas de bem, mesmo defendendo interesses distintos, e muitas vezes contraditórios, combater essa ação nociva por meio do diálogo e a coordenação de esforços. A união dos vários atores interessados na efetiva resolução dos problemas ambientais é capaz de amplificar o alcance das soluções encontradas, ao mostrar para o grande público que é possível, por meio do diálogo e entendimento mútuo, produzir efeitos satisfatórios na área ambiental. Além disso, essa abordagem no tratamento das questões relacionadas com o meio ambiente tem o mérito de explicitar quem são realmente os tolos, os vigaristas e as pessoas de bem.

Aqui jaz, as mãos invisíveis do mercado


Artigos
Lilian Ribeiro de Lima
Graduanda em Ciências Sociais pela UNESP

Aqui jaz, as mãos invisíveis do mercado
A experiência democrática tal qual se erigiu nos países subdesenvolvidos ao longo das últimas décadas do século XX, deixa marcas profundas na realidade e composição atual do cenário estrutural por todos seus quilômetros percorridos desde a América Central, visitando o Caribe e prolongando-se até o Cone Sul. Demonstrando contradições claras às imposições do receituário liberalizante sugerido pelos capitalismos centrais, bem como suas extensões financeiras responsáveis por romper fronteiras nacionais, finalidades inerentes às ditas benesses da globalização; o desenvolvimento sócio-econômico e a estabilidade política, converteram-se para os latinos em seus extremos opostos, tal como nominalmente periferia opõe-se diretamente ao centro. Neste contexto, a maximização do mercado em consonância à minimização do Estado, atinge o ápice das contradições e insatisfações ao modelo político democrático vigente na América Latina, anunciando perspectivas alarmantes de uma inadequação, que revela sua verdadeira faceta e efetiva constatação de reivindicações alternativas.
Guiados pelas mãos invisíveis do mercado, sob a égide da ideologia liberal, as antigas colônias européias adentraram no abismo de um retrocesso social sem precedentes, evidenciado por desigualdades sociais que lideram o ranking mundial, extrema pobreza e lacunas profundas entre a esfera pública e a sociedade civil, rompendo em definitivo com os verdadeiros fundamentos do Estado de Direito.A supervalorização das funções do mercado expressa através da desregulamentação e privatização de abrangentes esferas da vida, traz em si a polarização da liberdade civil. Entrelaçam-se, assim, sob o mesmo tecido social pontos esparsos de cidadãos livres para desenvolver suas capacidades humanas, em detrimento da predominante presença de cidadãos desabilitados e alijados das condições necessárias para coexistir sob a lógica competitiva suscitada pelo sistema capitalista.
O modelo político verdadeiramente democrático baseado na igualdade de todos, não somente via instrumentos jurídicos formais, mas de sobre maneira, em possibilidade de acesso a componentes inalienáveis dos cidadãos tais como educação, saúde, informação e seguridade social, reúne as condições vitais capazes de sugerir liberdade individual para o desenvolvimento humano em uma sociedade de classes sob preceitos significativamente mais equânimes. Tais garantias, tão caras à sociedade ocidental moderna e aos princípios fundadores da democracia, trilharam um caminho perverso ao longo dos avanços rumo ao estágio global da economia de mercado, e nesta trajetória o Estado perdeu em funcionalidade, ficando em contrapartida para a sociedade o ganho em desigualdade social, mediante a inexistência de um componente neutralizador e norteador das relações entre interesses econômicos e sociais. De tal forma, segue uma evidente ascensão daqueles que detém as condições necessárias para exercer sua liberdade de mãos dadas ao mercado, em desqualificação da liberdade da expressiva grande maioria dos cidadãos deficientes de tamanha mobilidade de seus membros superiores. Dita em outras palavras esta analogia pode pressupor que, dentre os meandros do caminho guiado pelas mãos do mercado polariza-se o cenário entre protagonistas, que caminham em paralelo à dinâmica do capital, e figurantes alijados de toda sorte do processo de aquisição de requisitos básicos para competir em condições efetivamente igualitárias.
Em capítulos posteriores a este contexto de agigantamento do mercado, é que as famigeradas mãos invisíveis demonstram sua face, anunciando em múltiplas tonalidades e contrastes, que as diferenças compõem o lamentável corolário do mergulho nas ondas da liberalização, e desregulamentação, cegamente aderidas pelos países latino-americanos. A concentração em âmbitos econômicos, sociais e culturais, em benefício do mercado demonstrou ser insustentável uma economia de mercado auto-regulamentada, sobretudo, por romper com os reais valores morais do modelo político democrático.
A rendição e o conformismo não podem configurar a posição da sociedade civil diante dos ditames do mercado em sua ação, por séculos, imperceptível e silenciosa. A realidade desigual clama e possibilita a busca por novas formas de vida democrática, diante das renovações nas estruturas e mecanismo democráticos, nas quais os referendo e plebiscitos representam avanços significativos. A lacuna entre cidadão e poder público, bem como a contradição inerente entre democracia e capitalismo de mercado, pode ser preenchida em prol do desenvolvimento de condições equânimes significativas dentro do jogo capitalista desigual.
A estrutura política verticalizada, que vai desde o poder público, perpassando pelos seus mecanismos de controle, a atuação de partidos políticos, e finalizada na sociedade civil (a ordem não altera o produto), pode reestruturar-se e estabelecer um caminho guiado pelas mãos de todos os cidadãos, sendo estes expressos através dos representantes eleitos, tais como a democracia representativa sugere. As imposições anunciadas pela ideologia liberal, convenceram por longos períodos acerca do fim da história e da impossibilidade de criar alternativas ao modelo político-econômico e social vigente, entretanto, as profundas mazelas restante desse acordo feito às escuras penetram no limiar da crise democrática latino-americana como anúncio de novos tempos.
Eliminar o distanciamento entre Estado e sociedade civil, através do fortalecimento de instituições e mecanismos democráticos, com vistas a derrubar o gigantesco mercado e suas corporações transnacionais das funções as quais fora retirado o candidato mais próximo e eficaz para intervir na esfera pública; o Estado,é imprescindível para reduzir a alarmante polarização da liberdade entre àqueles, que detém os modos de produção e acesso a recursos básicos de subsistência, e aqueles que circundam pelas margens do tecido social e da participação democrática.
O mito do desenvolvimento social e econômico propagado pelas mãos invisíveis do mercado está em vias de ser revertido como possibilidade única, em contexto tal como se dá na total inadequação escancarada nos países latino-americanos. O novo caminho é longo e ser otimista em tempos como estes, por vezes parece antiquado. Contudo, de todos o males o pior; a permanência do crescimento irrefreável das receitas dos grandes conglomerados transnacionais, em face da perpetuação de índices exorbitantes das desigualdades econômicas, extrema miséria e injustiça social, e marginalização do componente principal do modelo político democrático; a esmagadora maioria dos cidadãos.

A Raiz das Coisas- Rui Barbosa:O Brasil no Mundo

RESENHAS
A Raiz das Coisas- Rui Barbosa:O Brasil no Mundo
Carlos Henrique Cardim



JOAO BOSCO MONTE
Doutor em Educação
Professor de Relações Internacionais
Universidade de Fortaleza


Através de um minucioso trabalho de pesquisa, nos chega às mãos uma completa investigação sobre a trajetória política de Rui Barbosa. O livro de Carlos Henrique Cardim, intitulado A Raiz da Cosias – Rui Barbosa: o Brasil no Mundo, nos apresenta o legado deixado por Rui Barbosa à diplomacia brasileira, de maneira especial com a participação brasileira nos grandes debates mundiais.

Carlos Henrique Cardim, professor da Unb e do Instituto Rio Branco, apresenta de forma didática que o baiano Rui Barbosa, não foi apenas um respeitável político, intelectual e jurisconsulto, mas foi reconhecidamente um dos brasileiros de maior dimensão cultural e moral da nossa história.

Dessa forma, segundo Carlos Cardim, além do Barão do Rio Branco, considerado o patrono da diplomacia brasileira, também deve ser conferido o mesmo tratamento a Rui Barbosa. O autor se refere a Rui Barbosa como patrono da diplomacia multilateral brasileira, ao mesmo tempo em que esclarece que o próprio Rio Branco, por diversas vezes tratou de enaltecer sua atuação como defensor dos interesses brasileiros.

O livro A Raiz da Cosias – Rui Barbosa: o Brasil no Mundo traça a trajetória de um personagem central da história da primeira república, ora como político, ora como jurista e também como representante diplomático do Brasil em diversos eventos como a II Conferência de Haia de 1907. Foi justamente durante a conferência, que o delegado brasileiro defendeu a igualdade jurídica das Nações, ocasião em que iniciou as discussões sobre a criação de uma corte de arbitragem a nível internacional, cujo objetivo seria eliminar a submissão dos pequenos paises às grandes potencias.

A produção literária de Rui Barbosa, composta de quase 200 volumes, entre palestras, conferências, consultas, pareceres, além de vários discursos precisava de um tratamento mais preciso. Nesse sentido Carlos Cardim procura mostrar o conjunto da obra de Rui Barbosa, até então de difícil acesso e dispersa em várias fontes ressaltando sua importância na política externa brasileira e qual papel teria na I Guerra Mundial e no caso Dreyfus.

Para todos aqueles que se interessam pela história das relações exteriores do Brasil, fica o convite para uma leitura atenta nas 350 páginas de A Raiz da Cosias – Rui Barbosa: o Brasil no Mundo e assim aprender com o legado ruiano em matéria de relações internacionais.

*A Raiz das Coisas- Rui Barbosa:O Brasil no Mundo- Carlos Henrique Cardim Editora Record, 2009 - 350 pag

segunda-feira, 1 de março de 2010

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Livros

O nascimento das fábricas



Dentre todas as utopias criadas a partir de século XVI, nenhuma se realizou tão desgraçadamente como a da sociedade do trabalho. Fábricas-prisões, fábricas-conventos, fábricas sem salário, que aos nossos olhos adquirem um aspecto caricatural, foram sonhos realizados pelos patrões e que tornaram possível esse espetáculo atual de glorificação do trabalho. Para se ter uma idéia da força dessas utopias realizadas impregnando todos os momentos da vida social a partir do século XVIII, basta considerarmos a transformação positivo do significado verbal da própria palavra trabalho, que até a época Moderna
Sempre foi sinônimo de penalização e de cansaços insuportáveis, de dor de esorço extremo, de tal modo que a sua origem só poderia estar ligada a um estado extremo de miséria e de pobreza. Seja a palavra latina e inglesa labor, ou a francesa travail, ou grega ponos ou a alemã Arbeit, todas elas, sem exceção, assinalam a dor e o esforço inerentes à condição do homem, e algumas como ponos e Arbeit têm a mesma raiz etmológica que pobreza (penia e Armut em grego e alemão, respectivamente).

Essa transformação moderna do significado da própria palavra trabalho, em sua nova positividade, representou também o momento em que, a partir do século XVI, o próprio trabalho ascendeu da “mais humilde e desprezada posição ao nível mais elevado e à mais valorizada das atividades humanas, quando Locke descobriu que o trabalho era a fonte de toda riqueza, e alcançou seu ponto culminante no “sistema de trabalho” de Marx onde o trabalho passou a ser a fonte de toda a produtividade e expressão da própria humanidade do homem” (Hannah Arendt, La Condición Humana, p. 139).

A dimensão crucial dessa glorificação do trabalho encontrou suporte definitivo no surgimento da fábrica mecanizada, que se tornou a expressão suprema dessa utopia realizada, alimentando, inclusive, as novas ilusões de que a partir dela não há limites para a produtividade humana.

Essa descoberta delirante da fábrica como lugar, por excelência, no qual o trabalho pode se apresentar em toda a sua positividade não só alimentou as projeções dos apologistas da sociedade burguesa, como também a de seus próprios críticos, na medida em que ela foi entendida como momento de uma liberação sem precedentes das forças produtivas da sociedade. Assim, a fábrica ao mesmo tempo que confirmava a potencialidade criadora do trabalho anunciava a dimensão ilimitada da produtividade humana através da maquinaria.

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Introjetar um relógio moral no coração de cada trabalhador foi a primeira vitória da sociedade burguesa, e a fábrica apareceu desde logo como uma realidade estarrecedora onde esse tempo útil encontrou o seu ambiente natural, sem que qualquer modificação tecnológica tivesse sido necessária. Foi através da porta da fábrica que o pensamento do século XIX produziu sobre a fábrica, reduzindo-a a um acontecimento tecnológico.

DE DECCA, Edgar Salvadori. O Nascimento das Fábricas. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1986.


CAIO PRADO JR. E A NACIONALIZAÇÃO DO MARXISMO NO BRASIL

Quando comentei com algumas pessoas que pretendia escrever sobre Caio Prado Jr., boa parte delas mal conseguiu disfarçar a estranheza. Tenho a impressão de que devem ter imaginado que um estudo desses seria uma perda de tempo. Essa atitude me parece refletir uma imagem bastante difundida de nosso autor em alguns círculos “bem pensantes”: como alguém que teve
sua importância, mas que é, de certa forma, datado.
A relevância de Caio Prado Jr. é reconhecida por ser ele considerado, juntamente com Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, um dos autores que inaugura, a partir da década de trinta, uma nova maneira de se entender o Brasil. As abordagens dos três teriam sido favorecidas sobretudo pelos novos ventos que passaram a soprar no país desde os anos vinte e se tornaram irreversíveis com a Revolução de 1930. Já se tornou mesmo redundante citar Antonio Candido1 quando afirma que sua geração foi marcada por três livros: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. Mas, a partir das importantes sugestões de Antonio Candido, formulou-se uma quase representação da contribuição que cada um desses autores teria dado à compreensão de nossa realidade.
Tem-se mesmo a impressão de que há quase o equivalente a uma divisão do trabalho entre os pais fundadores do pensamento social brasileiro. Influenciado pela antropologia cultural norte-americana, Gilberto Freyre teria importância por ser dos primeiros a reconhecer a relevância da “contribuição negra” na formação de nossa sociedade. Inspirado, por sua vez, na sociologia weberiana e na hermenêutica alemã, Sérgio Buarque de Holanda teria chamado a atenção para a predominância entre nós de relações primárias, verdadeiro impedimento para o estabelecimento da democracia no Brasil. Já Caio Prado Jr. garantiria seu lugar no panteão dos grandes intérpretes do Brasil, por ser o inaugurador no país do uso de um “método relativamente novo”, o materialismo histórico.
O que teria feito com que “as classes emerg(iss)em pela primeira vez nos horizontes de explicação da realidade social brasileira — enquanto categoria analítica”.
Desses três pensadores fundamentais, Sérgio Buarque é o que provavelmente conserva a melhor reputação, o que talvez se deva mais a motivos políticos do que intelectuais. Mas como não poderia deixar de ser, nem mesmo o historiador weberiano está imune às críticas. A principal delas é que ele enfatiza demasiadamente a importância que tiveram os aspectos culturais em nossa história.
Conseqüentemente, sua análise compartilharia de defeitos comuns a outros enfoques do tipo, em especial, certa dificuldade em lidar com a mudança.
Em relação a Freyre, as avaliações são mais contundentes. Conviveria com seu lado positivo uma face maléfica. Afinal, o sociólogo pernambucano seria o principal formulador de uma ideologia, a ideologia da democracia racial. Ela teria sua importância por fornecer, nas palavras de Renato Ortiz, “uma carteira de identidade ao brasileiro”, mas também, como ideologia, não deixaria de encobrir aspectos não muito edificantes de nossa realidade.
Em particular, a brutalidade que teve a escravidão entre nós, brutalidade que persiste nas relações entre raças. Assim, como disse certa vez Florestan Fernandes, o brasileiro passou a ser “o sujeito que tem o preconceito de não ter preconceito”....

RICUPERO, Bernardo. Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no Brasil. São Paulo: Fapesp, 2000.



FILOSOFIA do COMBATE
Os Fundamentos do Confronto Individual


“Prepare-se com antecedência.
Você nunca terá problemas se estiver preparado para eles.” (Theodore Roosevelt)
Algumas pessoas predam outras.
Gostemos de saber disso ou não, esse é um dos fatos definitivos da vida.
Sempre foi assim e nada indica que isso mudará enquanto o homem estiver sobre a terra.
A quantidade de sociopatas numa determinada população pode variar muito, mas podemos, de forma simplista, falar numa cifra de um em cem, e não ficaremos muito distantes da realidade.
Cerca de uma em cada cem pessoas irá, sob certas circunstâncias, iniciar um ataque violento contra outra pessoa, ao arrepio da lei, por razões que só a ele parecem suficientes naquele momento.
Pegue-se a população masculina em forma de uma determinada comunidade, divida-se esse número por cem, e se obterá a quantidade aproximada de possíveis contatos com indivíduos capazes de lhe agredir de forma injustificada.
Não é pertinente, aqui, analisar esse cálculo, pois o mesmo pode estar errado para determinado tempo e espaço.
Talvez na comunidade do leitor, ou no momento da leitura deste texto, esses números variem.
Mas qualquer indivíduo atento ao seu meio-ambiente saberá que os perigos de um ataque violento existem e que isso é real em todos os lugares deste País e a qualquer tempo.
A polícia faz um grande e insubstituível trabalho, mas só pode nos proteger ocasionalmente, pois para prevenir as ocorrências criminosas precisa estar nas proximidades do fato, o que depende de muitos fatores, inclusive o acaso.
Fora isso, o pressuposto básico para ser atendido pela polícia é ter se tornado vítima.
Não há como a polícia estar todo o tempo em todos os lugares.
O autor crê que o direito da legítima defesa existe e pode ser exercido.
Muitas pessoas pensam diferente.
Este livro não foi escrito para elas.
Foi escrito para aqueles que pensam que quem opta por atacar fisicamente outra pessoa faz isso por sua própria conta e risco.
Alguns juristas acreditam que a vítima de um ataque violento deva tentar escapar antes de recorrer ao confronto.
Isso não é taticamente sensato, por mais bonito que possa parecer do ponto de vista jurídico.
Ao tempo em que alguém tenha exaurido todos os meios de evitar um confronto, talvez seja tarde demais para salvar a própria vida.
Afinal, não tratamos, aqui, da filosofia dos direitos humanos, mas da arte de sobreviver à violência.
Assume-se que se alguém, atacado de forma injustificada, sobrevive ao confronto, ele estará melhor que o perdedor, ainda que tenha que responder na justiça por eventuais excessos cometidos.
Crimes violentos são plausíveis apenas se as vítimas forem covardes.
Vítimas que reagem às agressões fazem o “negócio” do crime violento muito arriscado e pouco produtivo para seus agentes.
É verdade que uma vítima que reage pode sofrer graves conseqüências por isso, mas quem não reage quase que certamente sofrerá por isso.
Veja-se o casal de adolescentes barbarizado e assassinado por um grupo liderado por um delinqüente juvenil.
Tomem-se as muitas vítimas do “maníaco do parque”.
A tão pregada não-reação de nada lhes valeu.
Afinal, sofrendo ou não por sua reação, aquele que reage ao menos retém sua dignidade e auto-estima.
Qualquer estudo da lista de atrocidades dos anos recentes mostra imediatamente que a timidez e ineptude para reagir por parte das vítimas virtualmente assistiu seus assassinos.
Qualquer pessoa honrada não pode, por sua honra, submeter-se a ameaças e violência.

Mas muitos homens, que não são covardes, simplesmente estão despreparados para enfrentar os fatos da selvageria humana.
Eles não pensam sobre o assunto - por mais absurdo e incrível que isso possa parecer ao tomarmos ciência dos fatos violentos noticiados diuturnamente na televisão, rádio, jornais e na Internet – e simplesmente não sabem como agir.
Quando esses homens olham de frente a face da violência e depravação, eles ficam atônitos e confusos.
Mas isso pode ser corrigido.
As técnicas de combate pessoal não são abordadas neste livro.
Eu mesmo escrevi obras sobre essas formas de combate, e essas estão disponíveis, gratuitamente, na internet.
As assim chamadas Artes Marciais (boxe, karatê, judô, luta com bastão, combate com facas, tiro defensivo, etc.) são estudos completos em si mesmos e devem ser aprendidos e praticados com diligência.
Fervorosamente recomendo que todas as pessoas fisicamente aptas aprendam alguma dessas técnicas e treinem até alcançar a maestria.
Mas o objeto deste volume é mais básico que técnicas, sendo um estudo dos princípios filosóficos que regem o combate individual e a sobrevivência frente à violência gratuita de parte de agressores humanos que vivem à margem da sociedade – os marginais.
Estratégia e tática são estudos subordinados aos princípios da guerra, assim como combate defensivo individual é um estudo subordinado aos princípios da defesa pessoal que a seguir
explanaremos.



LUCAS - Capítulo XXII - versículos 35 ao 50:
35:
E disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura
alguma coisa? Eles responderam: Nada.
36:
Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o
que não tem espada, venda a sua capa e compre-a;
37:
Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os
malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento.
38:
E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta.
39:
E, saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos
o seguiram.
40:
E quando chegou àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação.
41:
E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava
42:
Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice;
todavia não se faça a minha vontade, mas a tua
43:
E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia.
44:
E, posto em agonia, orava mais intensamente.
E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão
45:
E, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos, e achou-os dormindo de tristeza.
46:
E disse-lhes: Por que estais dormindo?
Levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação.
47:
E, estando ele ainda a falar, surgiu uma multidão; e um dos doze, que se chamava Judas,
ia adiante dela, e chegou-se a Jesus para o beijar.
48:
E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem?
49:
E, vendo os que estavam com ele o que ia suceder, disseram-lhe:
Senhor, feriremos à espada?
50:
E um deles feriu o servo do sumo sacerdote, e cortou-lhe a orelha direita.

ABRAHÃO, J.R.R.. A Filosofia do Combate. Supervirtual, 2004.


Convite à Filosofia


Para que Filosofia?
Ora, muitos fazem uma outra pergunta: afinal, para que Filosofia?
É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar, por exemplo, para que matemática ou física? Para que geografia ou geologia? Para que história ou sociologia? Para que biologia ou psicologia? Para que astronomia ou química? Para que pintura, literatura, música ou dança? Mas todo mundo acha muito natural perguntar: Para que Filosofia?
Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis.
Essa pergunta, “Para que Filosofia?”, tem a sua razão de ser.
Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata.
Por isso, ninguém pergunta para que as ciências, pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica, isto é, na aplicação científica à realidade.
Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte, quanto porque nossa cultura vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados para o elogio da humanidade.
Ninguém, todavia, consegue ver para que serviria a Filosofia, donde dizer-se: não serve para coisa alguma.
Parece, porém, que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade, através de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas acreditam na existência da verdade, de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, na tecnologia como aplicação prática de teorias, na racionalidade dos conhecimentos, porque podem ser corrigidos e aperfeiçoados.

Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não é ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da Filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo. No entanto, como apenas os cientistas e filósofos sabem disso, o senso comum continua afirmando que a Filosofia não serve para nada.
Para dar alguma utilidade à Filosofia, muitos consideram que, de fato, a Filosofia não serviria para nada, se “servir” fosse entendido como a possibilidade de fazer usos técnicos dos produtos filosóficos ou dar-lhes utilidade econômica, obtendo lucros com eles; consideram também que a Filosofia nada teria a ver com a ciência e a técnica.
Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinarnos a virtude, que é o princípio do bem-viver.
Essa definição da Filosofia, porém, não nos ajuda muito. De fato, mesmo para ser uma arte moral ou ética, ou uma arte do bem-viver, a Filosofia continua fazendo suas perguntas desconcertantes e embaraçosas: O que é o homem? O que é a vontade? O que é a paixão? O que é a razão? O que é o vício? O que é a virtude?
O que é a liberdade? Como nos tornamos livres, racionais e virtuosos? Por que a liberdade e a virtude são valores para os seres humanos? O que é um valor? Por que avaliamos os sentimentos e as ações humanas?
Assim, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia não é o conhecimento da realidade, nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo se disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem.
Atitude filosófica: indagar Se, portanto, deixarmos de lado, por enquanto, os objetos com os quais a Filosofia se ocupa, veremos que a atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado.
Essas características são:
- perguntar o que a coisa, ou o valor, ou a idéia, é. A Filosofia pergunta qual é a realidade ou natureza e qual é a significação de alguma coisa, não importa qual;....

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.
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Leituras Recomendadas

"À sombra do mato virgem ...": natureza e modernidade em uma abordagem sociológica brasileira*

Sergio Barreira de Faria Tavolaro
O presente artigo coloca-se como tarefa investigar os vínculos discursivos que se estabelecem em nossa sociologia da inautenticidade entre, de um lado, o lugar da natureza na sociabilidade brasileira contemporânea e, de outro, o problema do status da modernidade no Brasil. Interessa ao autor responder às seguintes questões: 1) de que maneira as relações entre modernidade no Brasil e mundo natural configuram-se, implícita e explicitamente, na abordagem do pensamento social brasileiro que tem em Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Faoro e DaMatta as suas figuras centrais?; e 2) quais as implicações teóricas desses vínculos para os diagnósticos traçados a respeito do status da modernidade no Brasil contemporâneo?

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Política ambiental para quem?
Leandro de Castro Siqueira
Ultimamente é comum as políticas públicas de desenvolvimento econômico considerarem também a proteção ambiental. Mas elas se mostram pouco eficazes se construídas sem a participação popular. Essa falta de participação deriva de relações sociais de poder, desconfiança nas instituições e percepção distorcida de problemas ambientais. A solução é somar as contribuições de todos os segmentos envolvidos desde o início da elaboração de políticas ambientais.

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O sistema de educação superior mundial: entre a internacionalização ativa e passiva

Manolita Correia LimaI; Carolina Machado Saraiva de Albuquerque MaranhãoII
Levando em conta as especificidades que singularizam a internacionalização da educação, o objetivo deste texto reside em definir o conceito de internacionalização ativa e passiva no universo da Educação para em seguida aplicá-lo no aprofundamento de questões pertinentes à mobilidade estudantil. Inicialmente discutir-se-á a mobilidade no âmbito mundial, levando em conta dados relativos aos principais países receptores e emissores de estudantes, e finalmente situar-se-á o fenômeno entre os países latino-americanos. A discussão permitirá argumentar que, limitada a poucos países, a internacionalização ativa se presta a criar condições favoráveis à emergência de uma internacionalização hegemônica (DALE, 2004; e outros). Tais condições contribuem para o agravamento do que Boaventura de Sousa Santos (2002), António Teodoro (2003) e Roger Dale (2004) nomeiam de globalização hegemônica. Neste contexto, os desequilíbrios regionais se alargam na medida em que há flagrante descompasso entre os ativos conquistados nos países centrais e periféricos. As fontes de materiais explorados na fundamentação das idéias serão de caráter bibliográfico e documental. A pesquisa documental se valerá, predominantemente, de relatórios de pesquisas realizadas em âmbito mundial, com o suporte de organismos multilaterais - Institut de Statistique (UNESCO, 2007, 2006, 2005, 2004, 2003); International Institute for Education (OCDE, 2007; 2006a; 2006b; 2005; 2004); Centre pour la Recherche et l'Innovation dans l'Enseignement (OCDE, 2004); Banque Mondial/OCDE (2004; 2005); Associação Internacional de Universidades (UNESCO, 2003). Os dados selecionados serão interpretados com o suporte de diversificado referencial teórico.

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Memória e história da educação medieval: uma análise da Autentica Habita e do Estatuto de Sorbonne

Terezinha Oliveira
O objetivo deste trabalho é tecer considerações sobre a história e a memória de homens de saber, entre os séculos XII e XIII, no Ocidente latino, a partir de dois documentos. O primeiro é o Authentica Habita (1155/58). Este documento foi editado pelo imperador Frederico Barbaroxa (1122-1190). Nele, o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (1152-1190) apresentou uma lei, considerada a primeira, para defender os interesses dos homens de saber - ou daqueles que se dedicavam ao conhecimento. O segundo é o Estatuto da Universidade de Sorbone (1274). Este documento tinha como objetivo regular a vida dos estudantes no lócus universitário. Para a análise dos dois documentos que procuravam proteger e regulamentar a vida de homens do saber seguiremos os caminhos da história social, sob a perspectiva da longa duração. Entendemos que os processos históricos, os fenômenos educativos e as instituições escolares e universitárias de outros tempos históricos podem servir de pontos de partida para uma reflexão dos homens contemporâneos diante das suas questões.

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Sólidas, dúcteis e líquidas: noções em mutação de "lar" e "terra natal" nos estudos da diáspora1

Robin Cohen
Será que a diáspora subentende a terra natal? Segundo alguns estudiosos que impulsionaram o crescimento dos estudos diaspóricos na década de noventa, essa era uma condição sine qua non do conceito. Sob a pressão dos críticos do construcionismo social que tentavam descontruir as idéias básicas de "terra natal" e comunidade, surgiram noções mais complexas e indefinidas de "terra natal" e de "lar". Essas, da realidade histórica à virtualidade pós-moderna, são aqui caracterizadas em uma escala decrescente "sólidas", "dúcteis" e "líquidas". Demonstro que essas três versões de "lar" ou "terra natal" possuem base histórica e empírica considerável, porém refuto o mero construcionismo social. Também há indícios de que as noções de "terra natal sólida" estejam recebendo cada vez mais atenção.

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O trabalho infantil no brasil contemporâneo

Inaiá Maria Moreira de Carvalho
Este trabalho analisa o panorama atual do trabalho infantil na sociedade brasileira, abordando a sua origem, trajetória recente, efeitos sobre as crianças e adolescentes e políticas que vêm sendo desenvolvidas para combatê-lo. Baseando-se em tabulações especiais da PNAD de 2006, ele mostra a dimensão do fenômeno e como a atividade precoce se diferencia conforme a idade, o sexo, a residência rural e urbana e as grandes regiões, assinalando suas condições de atividade e seus impactos perversos sobre a educação e a saúde dos pequenos trabalhadores. Considerando tanto os determinantes econômicos como os valores e representações simbólicas que estão na base da sua reprodução, o texto conclui destacando como, nas condições do desenvolvimento brasileiro, esse é um fenômeno de difícil erradicação.

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O legado educacional do regime militar
Dermeval Saviani
Este texto se propõe a uma retomada da política educacional e das realizações da ditadura militar no Brasil, pondo em destaque aspectos que se fazem presentes, ainda hoje, na educação brasileira. Eis os pontos destacados: vinculação da educação pública aos interesses e necessidades do mercado, que se efetivou na reforma universitária e especialmente no intento de implantação universal e compulsória do ensino profissionalizante; favorecimento à privatização do ensino, que ocorreu principalmente mediante as autorizações e reconhecimentos do Conselho Federal de Educação; estrutura de ensino decorrente da implantação de mecanismos organizacionais que se encontram em plena vigência; um modelo bem sucedido de pós-graduação implantado a partir da estrutura organizacional americana e da experiência universitária européia.

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A construção da masculinidade e a banalidade do mal: outros aspectos do trabalho escravo contemporâneo*

Patrícia Trindade Maranhão Costa
O texto estimula a discussão e a reflexão sobre outros aspectos que envolvem a escravidão contemporânea no Brasil: o processo de construção da masculinidade que permeia a partida dos jovens trabalhadores rurais que acabam enredados no endividamento progressivo e, paralelo a este, o processo de desenraizamento social, que apaga os laços com a família deixada para trás e com os lugares de origem desses jovens trabalhadores. Isso acentua sua vulnerabilidade e contribui para que suas vidas sejam destituídas de valor político e importância social.

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Migraciones e Inmigraciones en las religiones: la diversidad religiosa en el Medioevo1

Gerardo Rodríguez
Migraciones e inmigraciones, diversidad religiosa son expresiones que remiten a fluidos y conflictivos contactos culturales. Hombres y mujeres de la Antigüedad y la Edad Media en un juego dialéctico constante de aceptación y rechazo, asimilación y xenofobia; la relación con gentes de costumbres, ideologías, religiones diferentes. Diferentes a los que se teme por muchos motivos, son los "otros", de quienes no se conocen todas las características y que, tal vez, modificarán las peculiaridades del receptor. Esta identidad comporta espacios y límites, espacios y fronteras. Espacios físicos o culturales, reales o anhelados, espacios que nos rechazan o nos aceptan. Espacios limitados, límites múltiples… todos ellos remiten a los contactos culturales y a fronteras.

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O papado avinhonense e os poderes civis: as décadas de 30 e de 40 do século XIV a partir de três obras de Guilherme de Ockham

Ana Paula Tavares Magalhães
A negação da chamada plenitudo potestatis ao papa, por parte do menorita Guilherme de Ockham, insere-se, do ponto de vista de seu contexto histórico, no amplo movimento, processado a partir da transição do século XIII para o XIV, de declínio do Império enquanto poder universal, somado à progressiva busca pela laicização das questões de Estado, tendo como resultado a mudança na concepção da autoridade papal. Dessa forma, querelas ocorridas entre o regnum e o sacerdotium passariam a opor à autoridade papal a figura de monarcas em franca ascensão (caso da disputa entre Bonifácio VIII e Filipe IV, da França). Além disso, as novas soluções configuravam-se antes como favoráveis aos poderes civis que à autoridade papal. Um aspecto significativo da ampliação do poder e prestígio das monarquias foi a própria transferência do papado para a cidade francesa de Avinhão, a partir de 1309, sob o papa Clemente V. O referido pontífice atendia à expectativa do mesmo rei da França, Filipe IV, o qual deveria, assim como seus sucessores, ao longo dos anos seguintes, utilizar-se da instituição eclesiástica com a finalidade de opor-se a seus inimigos políticos. Um dos pontos culminantes dessa aliança ter-se-ia dado sob o pontificado de Clemente VI (1342-1352), que apoiou o monarca francês Filipe VI contra seu primo e rei da Inglaterra Eduardo III, na Guerra dos Cem Anos; e ainda, sua hostilidade concorreu para a queda do imperador Luís da Baviera. Pretende-se, nesse trabalho, avaliar as relações do papado avinhonense com os poderes civis (os reinos da França e da Inglaterra e o Império), entre fins da década de 30 e inícios da década de 40 do século XIV. Para tanto, partiremos das obras Pode um príncipe, Consulta sobre uma questão matrimonial e Sobre o poder dos imperadores e dos papas, de Guilherme de Ockham.

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A França Antártica e a criação de padrões narrativos sobre o Brasil e os brasileiros

Jean Marcel Carvalho França
O objetivo deste pequeno ensaio é analisar as narrativas derivadas da primeira experiência colonizadora francesa no Novo Mundo, a França Antártica, com o intuito de demarcar em tais escritos certos padrões narrativos acerca da América e dos seus habitantes, os ditos selvagens. Buscaremos demonstrar que tais padrões, estabelecidos de maneira pioneira pelos gauleses, tiveram vida longa nas narrativas posteriores com menções ao Brasil e aos seus habitantes.

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No rascunho do Novo Mundo: os espaços e os personagens da França Antártica

Paulo Knauss
O trabalho aborda a história do empreendimento colonizador francês na área da baía de Guanabara que se desenvolveu entre 1555 e 1560, conhecida pelo nome de França Antártica. A experiência francesa foi derrotada pela reação militar portuguesa, definindo um contexto de disputa colonial. A partir dos conflitos internos da empresa colonial francesa, a análise desenvolve a identificação de diferentes grupos na colônia francesa que se caracterizavam pela afirmação de projetos coloniais distintos, o que permite reconhecer 3 partidos da França Antártica. A análise considera que os projetos políticos se dividiam entre a questão do Estado, da religião e dos índios, identificando o sentido de cada um dos grupos constituídos entre os franceses. O argumento permite abordar a questão da localização de Henriville, a cidade colonial francesa, demonstrando que o domínio do espaço se traduziu como expressão dos projetos coloniais que se articularam nas terras do Novo Mundo. A pesquisa faz uso dos documentos da Inquisição portuguesa para identificar trajetórias individuais que não foram tratadas pela historiografia sobre a França Antártica.

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Villegagnon & Cook: tupinambá e havaiano

Christina Osward
Trata-se de propor uma simetria entre ao que ocorreu na Baía de Guanabara, no século XVI, entre Tupinambá e franceses e na Baía de Kealakakua, no século XVIII, entre havaianos e ingleses, levando em consideração a dinâmica dos mal-entendidos. Argumenta-se que os brancos foram apreendidos pelos nativos, nos dois casos, de forma análoga, isto é, por meio da predação ontológica.

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Guerra nuclear local, catástrofe global

Alan Robock e Owen Brian Toon
As preocupações se fixam em Estados Unidos e Rússia, mas uma guerra nuclear regional entre Índia e Paquistão poderia ofuscar o Sol e matar de fome grande parte da humanidade

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Como são gerados terremotos e vulcanismo

Ulisses Capozzoli
Choque de placas que formam a crosta da Terra provoca fenômenos que têm como usina de força o núcleo do planeta

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Popcorn na caverna de Platão

Samir Thomaz*
O cinema é simplesmente um prosaico momento de prazer ou um momento de aprofundamento das questões humanas?
A cena era banal. Aliás, demasiada banal, resvalando para o prosaico. Mas desatou em mim uma enfiada de reflexões sobre a sociedade moderna que não pude evitar. A reflexão filosófica não escolhe hora nem lugar para se manifestar. Tampouco escolhe objeto. Basta o lampejo da percepção de algo que nos pareça fora do lugar, ou em contradição com alguma ordem lógica abstrata, no mundo ou em nós mesmos, para que nossos mecanismos sensoriais se mobilizem, alheios à nossa vontade.

Eu estava no cinema, na semipenumbra que antecede o início de uma sessão. Dir-seia uma versão moderna da caverna de Platão, com seu teatro de sombras feito de pessoas procurando o melhor lugar para se sentar.

Eis que entra um casal de namorados e se senta duas fileiras adiante. O ângulo perfeito para uma observação involuntária, uma vez que as poltronas são dispostas em acentuado declive. O rapaz segura um pacote de pipoca do tipo “jumbo” e um copo de refrigerante. Assim que se acomodam, passam a comer a pipoca e a compartilhar o canudinho do copo, provocando no ambiente os estalidos característicos do pacote sendo manuseado.


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Dinheiro real de mundos virtuais

Richard Heeks
Jogos de fantasia on-line movimentam comércio bilionário de troca de ouro virtual por moeda de verdade, sobretudo em países asiáticos

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O conhecimento artístico

Gian Danton*
Embora pareça um assunto datado, é recente a valorização da criatividade e da imaginação como elementos constitutivos do conhecimento. A arte, no entanto, não reflete uma forma de conhecimento que se encerra em si, pois a partir dela é possível alcançar novas formas de experiência humana.

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Quando os humanos começaram a alterar o clima?

Uma hipótese ousada sugere que as práticas agrícolas dos nossos ancestrais dispararam o aquecimento global milhares de anos antes de nós começarmos a queimar carvão e usar automóveis

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