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sábado, 13 de março de 2010

Novas abordagens entre a História e a Cultura Política

Artigos

Novas abordagens entre a História e a Cultura Política.
Pedro Ernesto Fagundes
Doutor em História Social (UFRJ). Professor do Centro Universitário São Camilo – ES e da Faculdade de Direito de Cachoeiro de Itapemirim – ES. pefagundes@uol.com.br

Resumo:
Esse trabalho analisa a utilização da História Política nas investigações do campo historiográfico. Esse campo da história tem nos últimos anos concentrado seus objetos de estuda nas questões ligadas a história do Estado, das eleições, do sufrágio universal e das escolhas dos eleitores. O movimento de retomada da História Política fez com que ocorresse de uma significativa ampliação das fontes de análise, entre elas as fontes jornalísticas. Dessa forma, esses novos desafios fizeram com que o estudo da história do tempo presente, sobretudo o produzido pela mídia, passasse a fazer parte das investigações na área da História.
Palavras-chave: História Política; Tempo presente; mídia.

New approaches between History and Political Culture.

Abscract:
This paper analyzes the use of political history in the investigations of the historiography. This field of history has in recent years concentrated its objects of study on issues related to the history of the state, elections, universal suffrage and the choices of voters. The movement of resumption of political history that has occurred with a significant expansion of sources of analysis, including journalists' sources. Thus, these new challenges have made the study of the history of the present time, especially that produced by the media, would become part of the investigations in the field of history.
Keywords: Political History; this time; media.

Inicialmente cabe ressaltar que a opção por abordar um tema da História Política brasileira no que tange, especialmente, as eleições presidenciais de 1989 poderia ser considerada uma árdua tarefa e que, certamente, se perderia no terreno árido das críticas. Essa resistência da comunidade acadêmica à História Política era muito comum pois, esse repúdio é fruto de uma visão que enquadrava os objetivos e metas da chamada “antiga ou tradicional” História Política como sendo apenas o estudo do Estado-Nação, dos comportamentos individuais dos grandes personagens. Assim, compreendemos os motivos que levaram a História Política a ser colocada “de lado” por muitos historiadores.
O “resgate” da História Política é um movimento comandado pela historiografia francesa, em geral, e por René Rémond, em especial. Esses autores desempenharam papel de destaque no “rejuvenescimento” da História Política. Para BORGES (1992) foi graças a esse trabalho de renovação da historiografia francesa que a noção de político se ampliou e passou a incluir o comportamento das pessoas diante da política, a evolução de suas atitudes ao tomarem posição, deliberada e consciente, para intervir nas áreas em que se decidem seus destinos.
Dessa forma, a História Política já guardava em seu nascedouro a marca clara de uma disciplina que buscaria os grandes embates do Estado, pelo poder e em busca das conquistas ou das revoluções que buscavam transformar a sociedade, ou seja, essas eram as fontes pioneiras de suas pesquisas. Assim, de acordo com RÉMOND (1996), através de uma metodologia Positivista, a História Política Tradicional relatava as glórias dos “grandes governantes” do passado. Porém, essa forma de fazer história, que foi hegemônica por um longo período, sofreu um abalo que há cinqüenta anos atingiu todos os campos da História.
A partir do surgimento da Nova História a História Política passa a ser “acusada” de, como já foi dito, ser uma história tradicional, conjuntural, obsoleta, desusada, factual, subjetivista, psicologizante, enfim, passa a ser impiedosamente criticada e refutada . Na visão do autor essa recusa pelo político fez com que no meio acadêmico a História Política fosse execrada e descartada e as questões econômicas e as relações sociais passassem a ditar todo o rumo das pesquisas históricas.
A reviravolta que possibilitou à História Política ter novamente um papel de destaque dentro do campo histórico foi, sem dúvida, a evolução e o aumento das atribuições do Estado, ou seja, para o autor o universo das questões políticas também se expandiu e diversificou a participação e o número de atores sociais na vida política.
Dessa forma, surge a brecha para a História Política, pois, esses novos temas analisados apenas pelo prisma econômico ou social não conseguiam ser plenamente compreendidos fora do ângulo historiográfico, ou seja, não conseguiam dar conta das novas demandas do campo político. A História Política retoma seu lugar de destaque, porém para p autor, a História Política ao olhar para esses novos fatos acaba tendo que renovar também sua metodologia para poder interpretar com rigor a realidade política e ideológica de sua época.

No caso, a renovação foi provocada, suscitada pela discussão dos conceitos clássicos e das praticas tradicionais. E nesse ponto, a constatação de que foi objeto a história política lhe foi salutar: o desafio fustigou a imaginação e estimulou a iniciativa. ( RÉMOND, 1996, p.26)

Além da mudança em seus conceitos a História Política irá enfrentar um grande debate sobre a fundamentação teórica e a metodologia de seus estudos, em especial, para o autor no que diz respeito ao sentido histórico das eleições, ou seja, sobre caráter passageiro e localizado de cada pleito ou, ao contrário, se existiria um comportamento ou padrão entre as várias parcelas da sociedade contemporânea durante um processo eleitoral.
O estudo do sufrágio universal, da abstenção, da participação popular e dos trabalhadores, enfim, todos esses aspectos são vistos e revistos pelos historiadores do político e a partir daí o ato eleitoral passa a ser observado como um dos comportamentos coletivos mais significativos e sinceros. O autor ressalta que não há história mais total que a participação na vida política.
Mesmo tendo passado por uma renovação de abordagem em relação aos seus objetos de estudo a História Política buscará novas fontes de pesquisa, ou seja, ela começa a desenvolver e ampliar suas buscas e com isso passa a dialogar com as amplas classes sociais, com crenças religiosas, com os meios de comunicação e até com as questões das relações internacionais. Assumindo essa postura a História Política envolve-se com as várias parcelas da sociedade e refuta definitivamente a acusação de interessar-se somente pelos grandes acontecimentos políticos relativos apenas às elites.
Outra grande acusação que recaía sobre a História Política e que acabou “caindo por terra” é a que diz respeito a seu caráter superficial e efêmero do estudo de um dado resultado eleitoral. Esse fato é indicativo para entendermos a razão pela qual a virada em relação ao estudo da história das eleições tenha ocorrido na França, pois é desse país o “título” de ter sido o primeiro a adotar o sufrágio universal.
Assim, o estudo das eleições a partir da renovada metodologia da História Política foi possível graças a uma estreita relação interdisciplinar com a Sociologia, a Ciência Política, a Lingüística e a Estatística. Essa relação se cristaliza entre os historiadores do político sem deixar de, principalmente, ser de fundo histórico.
Esse movimento de recuperação da História Política permite um melhor conhecimento das questões eleitorais, em especial a francesa, possibilitando aos historiadores do político recuperarem, segundo o autor, cerca de meio século da história da opinião pública daquele país. Comprovando com esses estudos que a História Política e o estudo das eleições podem fornecer uma série de dados que poderiam servir de alicerce para a análise e conhecimento das mentalidades e para a construção de uma história do cotidiano.
Outro tema tão importante e ao mesmo tempo carregado de controvérsias e discussões tanto quanto a questão da História Política é o debate sobre a chamada História do Presente. Esse ramo historiográfico surgiu marcado por um certo preconceito, como assinalam CHAUVEU e TÉTART (1999), em que os próprios historiadores em geral depositavam pouca atenção e davam pouca importância aos acontecimentos históricos recentes. Assim em outras palavras os autores afirmam que a Nova História ignorou o estudo do presente e que para a comunidade acadêmica, mergulhada nos grandes acontecimentos do passado, o estudo do presente seria uma tarefa menor e, portanto, caberia aos sociólogos, politólogos e alguns poucos grandes historiadores.
Com a chegada do século XX e seu turbilhão de acontecimentos, entre eles as duas Guerras Mundiais, a Era Atômica, a conquista do espaço, a Guerra Fria, a Primavera de 68, o colapso do leste europeu, etc., a noção de História adquire um sentido que, para RIOUX (1996), é de certa forma original e ímpar, pois passa a ser escrita pelos próprios personagens que estavam vivenciando esses fatos.
Como efeito desse conjunto de acontecimentos, em especial, logo após a Segunda Guerra o que se observou é que muitos universitários e intelectuais começaram a externar suas opiniões sobre os acontecimentos imediatos utilizando os meios de comunicação, com destaque para os jornais e revistas.
A partir da segunda metade dos anos cinqüenta teve uma intensa aproximação dos historiadores com as análises dos fatos do presente. Esse movimento teve seu ápice em 1978 quando foi criado o Intitut d’Histoire du Temps Présent, esse órgão cumpriu o papel de lançar para dentro da academia a reflexão sobre a História do Presente.Dessa forma, a História do Presente tem a marca de um segmento historiográfico que surge mais para sanar a demanda por análises dos fatos imediatos do que por um imperativo historiográfico.
Como efeito colateral da busca por análises e interpretações dos acontecimentos do presente os historiadores passaram a “dividir seu espaço” com os jornalistas. Esse fato possibilitou um encontro de conveniências, pois se, de um lado existiam historiadores sedentos de atualidade, do outro existiam jornalistas em busca de legitimidade histórica.
Esse encontro deixou algumas marcas em ambos os lados. Os historiadores “tomaram emprestado” dos jornalistas um estilo mais objetivo de escrever, práticas novas de pesquisa, de entrevista, de pesquisa de campo, escolha de temas, de atores, etc.
Essa “co-produção” também criou problemas no sentido de estreitar o contato com o poder da mídia, em especial da TV pois alguns historiadores passaram a invadir milhares de lares expressando suas opiniões sobre os acontecimentos.Isso teria criado um hábito ruim no sentido de alimentar continuamente o público com furos de reportagem, ou seja, essa necessidade estimulou a supervalorização de qualquer novo acontecimento, assim, fatos normais foram transformados pelo enfoque da mídia em “momentos históricos”, ou pior, qualquer acontecimento de maior relevância passou a ser tratado como uma “mudança nos rumos da história”.
A História do Presente foi primeiro marcada pelo selo jornalístico tendo em vista que ela pode ser considerada como cria da imprensa. Mesmo com o fator cronológico como fonte de estudo e tendo os jornalistas como “companheiros de viagem” os historiadores devem ter claro, segundo BERNSTEIN e MILZA (1996), que a história do presente é primeiramente é antes de tudo um ramo da História.
Os autores vão mais fundo na tentativa de traçar e demarcar o campo epistemológico em que atuam, ou deveriam atuar, os historiadores do presente e “...que por seus objetivos, seus métodos, suas fontes, a história do presente não difere em nada da história do século XX ...” (BERNSTEIN; MILZA, 1996, p.127).
Deste modo os historiadores souberam desenvolver métodos próprios no sentido de aprofundar sua abordagem dos fatos imediatos na direção de decodificar as informações das entrevistas, das testemunhas orais para que sua reflexão estivesse embasada dentro do ponto de vista cientifico e metodológico. Assim, com sua visão concentrada nessa meta, os historiadores garantiriam o rumo cientifico sem que essa busca, cada vez mais urgente e sedenta por análises e notícias do imediato, pudesse ter seu foco desviado.
Outro tema que passou a concentrar a atenção dos historiadores adeptos da “nova história política” foi o relativo as questões de caráter subjetivo, em especial sobre a cultura política. Um historiador símbolo desse movimento foi Serge Berstein, sendo o seu trabalho, A cultura política, uma das obras de referência sobre o tema.
Esse autor inicia seu texto fazendo um levantamento histórico sobre o termo cultura política. O resultado é a descoberta que o papel principal desse conceito é duplo, ou seja, ele mostra que nesse caso, evocar o passado tem como único intuito justificar os atos e ações do plano futuro.
Outro importante ponto levantado pelo autor é concluir que existiriam na verdade culturas políticas que poderiam coexistir no mesmo tempo e lugar, mesmo que, a principio, pareçam contraditórias. Por exemplo, o autor cita as culturas políticas do socialismo e da república e toda a problemática histórica existente entre ambas, ressaltando as características em comum que elas compartilhavam. Num processo que se desenvolve ao longo do tempo, a cultura política acaba sendo moldada e, ao mesmo tempo, moldando o comportamento da sociedade.
Em seguida, o autor realiza um levantamento dos locais em que a Cultura Política seria formada, destacando entre eles: a família, a escola, o exército e por fim o ambiente das agremiações políticas. Assim, é possível traçar um panorama amplo sobre as origens das manifestações que dariam sustentação às variadas fontes e formas de demonstração das culturas políticas. Em todos os ambientes citados ficam evidentes duas questões: primeiro que a construção da cultura política é histórica e, em segundo lugar, que ela acaba sendo elaborada em função da conjuntura de cada grupo social.
A tarefa principal do trabalho de Serge Berntein é verificar que o termo cultura política é plural, ou seja, que pode ser empregado para analisar as mais variadas manifestações e que também atende aos mais variados segmentos sociais. Ou seja, cada época e cada grupo social teriam suas próprias culturas políticas e o estudo dessas culturas políticas seria um importante instrumento de entendimento da realidade.
Além de variar entre os planos coletivo e individual, as culturas políticas também forneceriam uma visão compartilhada do passado que poderia se manifestar através de símbolos, canções, gestos que seriam, de fato, verdadeiros rituais que dariam sentido e coesão a um determinado elenco de atores políticos.
Portanto, as atuais pesquisas que pretendem abordar temas ligados à História Política têm uma parada obrigatória nos escritos de Serge Berstein. Esse autor, que é um dos mais conhecidos no campo da História Política, tem como maior mérito o fato de trazer à luz a noção de pluralidade das abordagens das culturas políticas. Nessa lógica, lançar um novo olhar sobre a História Política é compreender que mesmo as manifestações de cultura política aparentemente de características mais antagônicas, como as democráticas e as autoritárias, podem e devem ser valiosos objetos de estudos.
Como se vê, as abordagens suscitaram a utilização de um conjunto de novos elementos entre as ferramentas teóricas e metodológicas da história política. Temas que anteriormente não figuravam no elenco da história política de viés “tradicional”, muito afeitas somente a identificar as ações conscientemente planejadas dentro do campo político (que, por outro lado, em nossa concepção, não devem ser desconsideradas).
Assim, essa prática deixava de lado, portanto, a análise de determinados comportamentos políticos que “não se explicam somente pela vontade, pelo interesse ou por ações concentradas no plano racional”, mas também “pela crença, pela fé, pela força da tradição e do costume e por determinações originadas no plano do inconsciente”.
Nas últimas décadas trabalhos que buscavam ampliar o campo de pesquisa da história política passaram a desenvolver investigações sobre as culturas políticas, representações políticas, análise do discurso, rituais políticos, iconografia política, entre outros temas.

Referências Bibliográficas
BERNSTEIN, Serge; MILZA, Pierre. Conlusão. IN: Remond, Réne. Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/FVG, 1996.

BERSTAEIN, Serge. A Cultura Política. IN: Para uma História Cultural. RIOUX, Jean-Pierre; SIRINELLI, Jean- François (ORG). Lisboa: Editorial Estampa, 1999.

BORGES, Vany Pacheco. História e Política: laços permanentes. In: Revista Brasileira de História. S. Paulo, v.12, nº 23/24, p. 07 –18. set 91/ago. 92.
CHAUVEU, Agnes; TÉRTART, Phillippe. (org.). Questões para a história do presente. Bauru-SP. Edusp, 1999.
JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. História, Política e ensino. .IN: BITTENCOURT, Circe (Org.). O saber histórico na sala de aula.São Paulo. São Paulo: Contexto, 1998.
REMOND, René (org). Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/ FVG, 1996.
RIOUX, Jean-Pierre. Pode-se fazer uma História do Presente. IN: RÉMOND, René (ORG.) . Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/FVG, 1996.
RIOUX, Jean-Pierre.Entre História e Jornalismo. IN: REMOND, René. Por uma história política. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/FVG, 1996.

quarta-feira, 10 de março de 2010

ESCOLARIZAÇÃO DA INFÂNCIA: O TEMPO DE ESCOLA


Erica Piovam de Ulhôa Cintra
Doutoranda em Educação (Linha de Pesquisa: História e Historiografia da Educação) pela UFPR. E.mail: piovam@onda.com.br



Introdução


Todo início de ano, a mesma coisa: depois das férias escolares a preparação da volta às aulas. É a escola imperando os ritmos da vida social cotidiana e não tem mesmo jeito é assim e pronto. Mas será que “sempre” foi assim? A vista disso lançar um olhar para o passado nos leva a compreender que tal procedimento é algo recente na história da educação brasileira. Hábitos e costumes que, se hoje o temos por praxe, não foram “sempre” assim. Afinal, atos cotidianos levam tempo para se adaptar às nossas jornadas até os entendermos como algo a ser feito rotineiramente. A psicologia tem a sua forma de responder a essa questão e a história tem seu ponto de vista. Então, considerando apenas esse hábito – o do “volta às aulas” – sugiro aqui pensar sobre o percurso e a trajetória que nos legou esse costume de ansiarmos o tempo de escola, o tempo de aprender. Isso vai nos levar para um caminho ao encontro da história da escolarização da infância e de quando se tornou hábito a criança ir para a escola.

Nos tempos de escola...

Não é preciso ir ao início da civilização ocidental, aos gregos, para entender em que momento surgem os indícios que constituirão mais tarde a escola elementar enquanto locus privilegiado do aprender a ler, escrever e contar. Aliás, tomando-se o Brasil como exemplo, a escolarização da infância é de constituição bastante recente. Por justeza, a escola elementar pública no Brasil pode ser devedora, em alguma medida, dos descendentes da Hélade, mas o é, em muito maior medida, dos conterrâneos portugueses e até espanhóis Quinhentistas. Isso porque é nas “Índias do Brasil” que as coisas começam a acontecer na clássica seqüência da educação jesuítica à reforma pombalina, das aulas régias às reformas da instrução pública primária até a República e a constituição dos “grupos escolares” – este último considerado, no início do século XX, a materialização da modernidade educativa (a origem da escola pública primária brasileira) e “vitrines” do novo regime, o republicano. Com esse desenho, têm-se uma síntese geral (ainda que precária) da história da educação brasileira, essa que hoje se faz sob novas bases e que tem alcançado sobejamente o mercado editorial brasileiro.
Do Brasil-Colônia, o destaque à presença dos jesuítas como precursores dos primórdios da escolarização é fato consumado e conta com defensores de sua importância advindos inclusive da ilustrada intelectualidade brasileira de meados do século XX, pode-se citar como exemplo: Leonel Franca (1893-1948) ou ainda Fernando de Azevedo (1894-1971) – que dedica capítulo extenso à educação jesuítica na obra que procurou tornar o Brasil mais conhecido (A Cultura Brasileira, publicada em 1943) –, ambos marcados por essa educação confessional. Inclusive há que se notar, no caso de Azevedo, ele mesmo quase um jesuíta, não fosse ter sido mais uma vítima da dúvida existencial como ele mesmo diz em suas memórias publicadas em 1971 (cf.: Azevedo, 1971). Entretanto, a dúvida de uns é a firmeza de tantos outros, jesuítas. Num esforço de afirmação, os membros da recém-criada Companhia de Jesus (1534), desbravam mares e alcançam às Índias brasileiras (1549) e estabelecem novos campos de missão aos olhos da Igreja Católica. E encontram aqui solo fértil para sua semeadura que se pode dizer material e espiritual num período em que o “estatuto da criança” assumia, desde o velho mundo, contornos de importância e mudara de figura. Situação perceptível até mesmo nas pinturas que retratavam as crianças em novas formas e expressões: de alados anjos rechonchudos aos “pequerruchos” a vontade em cenas do cotidiano.
Assim, acompanhando um tempo em que a criança é compreendida de outro modo, os padres da Companhia de Jesus encontram nela o fundamental instrumento para o sucesso de sua missão e incutem nessa nova criança indígena – “papel branco” no qual se inscrevia, entre outros, a luta contra a antropofagia, a nudez e a poligamia –, a imagem do menino Jesus. E, de certo modo, os jesuítas inovam pelo atendimento educacional dos infantes. Afinal, era o ensino da doutrina, e do ler e escrever às crianças, uma das primeiras e principais preocupações dos jesuítas em terras Portuguesas. Soma-se a isso, os preceitos do “código prático de leis pedagógicas”: o Ratio Studiorum (1599) que passou a organizar o ensino de todos os Colégios da Companhia de Jesus em todo o mundo e que incluía a seleção dos 50 anos precedentes de experiência pedagógica da Ordem do qual contava a experiência local na produção do “código”. A despeito do rigor e da disciplina que pautava esse método de ensino, nem tudo foi pedra e cal. Os jesuítas que chegaram ao Brasil fizeram adaptações do método para a realidade que aqui encontraram. Assim, algumas concessões os auxiliaram no projeto missionário pretendido: “pregações na denominada ‘língua geral’, conhecimento da cultura nativa e busca de aproximação entre esta e a cultura européia, cura dos índios adoentados, tolerância e adaptação de ritos sacramentais, foram essas as principais inovações buscadas pelos jesuítas para auxiliarem na conversão dos indígenas.” (Bortoloti, 2003, p.9). Esse esforço, contudo, não significou ausência da dificuldade dos jesuítas em compreender e mesmo aceitar a cultura autóctone. Com o tempo e a despeito da pedagogia do medo ou ainda da “educação da conversão” (Daher, 2001), o desapontamento e o ressentimento dos jesuítas com os já educados meninos indígenas da Colônia, se tornaram crescentes. Isso porque eles não persistiam no reto caminho aprendido, especialmente no momento da adolescência, chamado “momento do rompimento” (Del Priore, 1998, p.23-25). Era como se a catequese inaciana já ‘pressentisse’ seus dias contados.
Passado poucos séculos e com uma significativa expressão em termos de difusão da educação jesuítica na Europa – eram mais de quinhentos colégios e cerca de 150 mil alunos ao cargo dos jesuítas dispersos naqueles países (Caron, 1996, p.139) –, em 1759, os padres da Companhia de Jesus são expulsos da Metrópole e das Colônias portuguesas pelo então Conde de Oeiras (título instituído neste mesmo ano à Sebastião José de Carvalho e Melo), depois Marquês de Pombal (instituído em 1769). Dá-se início ao que ficou conhecido como “reforma pombalina” da instrução pública que longe de significar um desvario contra a organizada educação formal à época significou, como afirma Laerte Ramos de Carvalho, a “expressão de uma época” ou ainda o “denominador comum de opiniões” (Carvalho apud Bomtempi Jr, 2000, p.158) e não apenas de um ministro, e que pretenderam colocar o reino português em situação de competitividade econômica e cultural, com as potências estrangeiras; daí a necessidade de atenuar ao máximo os privilégios das ordens religiosas no reino, também porque “a vida monástica estaria desviando muitos braços da indústria nacional” (áreas comercial e marítima, especialmente, conforme Bomtempi Jr, 2000). A par desse compasso, surgia o primórdio da história da escola pública no reino português com a substituição do ensino jesuítico pelas aulas régias, sistema esse que perdurou no Brasil até o ano de 1834. Os “estudos menores” ou ainda as escolas de “primeiras letras” e de disciplinas do equivalente ensino secundário foram assumidos pelo Estado e lecionados na casa dos régios (mestres e professores) – o primeiro prédio destinado à educação pública data de 1870, no Rio de Janeiro (Cardoso, 2005, p.179-188). Os “estudos maiores” – os superiores – se faziam na principal universidade do reino, a Universidade de Coimbra.
Com a vinda da família real demarcando o Estado Imperial brasileiro, entendido esse como “tempo de passagem” ou ainda como questiona Faria Filho (2003, p.135) acerca da “nossa idade das trevas”, a questão da educação brasileira não sai de cena e vê-se continuadamente em discussão nas atividades legislativas das Assembléias Provinciais. A necessidade da escolarização da população, sobretudo como dito nos jornais mineiros, os das “camadas inferiores da sociedade” aí constituídos por negros (livres, libertos e escravos), índios e mulheres, estava em pauta. Mas as discussões do século XIX acabariam por não gerar, naquele momento, ações muito efetivas no que diz respeito à escolarização. Contudo, é preciso considerar que, de um lado, a presença do Estado na educação era ainda muito pouco representativa e, de outro, a própria instituição escolar ainda não ocupava ali um lugar de destaque. Aspectos que acabariam por mudar lenta e paulatinamente no decorrer do século XIX. Até o método de ensino (do individual para o mútuo ou lancasteriano e depois para o misto, o simultâneo e o intuitivo - esse último com “lições de coisas” e que perdurou até os anos 30 do séc. XX) foi tema de deliberação visando abreviar o tempo (e os gastos) do acesso às primeiras letras e dão mostras da possibilidade de existência de variados modelos de escolarização. O acesso às primeiras letras fazia-se, a exemplo dos métodos, de diferentes formas: na casa dos professores ou nas fazendas (com ou sem auxílio estatal) ou ainda em redes de escolarização doméstica (sem freqüência escolar e chamadas de escolas particulares ou domésticas) ou ainda com preceptores, ou mesmo de forma mais organizada em colégios masculinos e femininos (confessionais). No final desse século, o entendimento de que a “instrução” ou “educação primária” devesse estar ordenada sob preceitos estabelecidos por “modernas” leis gerais – o progresso da nação pelo progresso das letras – ou ainda que devesse ter um espaço específico para uma ação eficaz, exigiria no século seguinte, a instituição de novas formas de escolarização (Faria Filho, 2003, p.135-149).
No final do XIX a disseminação de novas práticas educativas e de seus desdobramentos, como os materiais didático-pedagógicos, ou ainda as normativas acerca de uma “reforma de costumes” de base higiênica (Rocha, 2003) reforçavam a tese da necessidade de espaços salutares e próprios para a escolarização, especialmente para a educação infantil. Mudanças na esfera política com o período republicano, também marcariam esse tempo. Mudanças urgentes precisavam acontecer, daí a emergência dos grupos escolares, os templos do saber daquele tempo. E eles responderiam as expectativas a eles imputadas? A julgar pelo recente trabalho de um conjunto de atuais historiadores da educação, a resposta é afirmativa. Ao aglutinar em um mesmo edifício as antigas escolas isoladas, ao organizar a docência no ensino seriado e seqüencial sob a autoridade do professor, ao regular a escola pela introdução da figura do diretor e ao produzir “uma nova hierarquia funcional pública” (Vidal, 2006) se corrobora para afirmar ainda mais essa questão. Os grupos escolares significaram a organização da escola primária a nível nacional, representativa de um período (oito décadas) que procurou projetar e projetar-se como uma virada pragmática no sentido educacional, político e cultural brasileiro. E de certa feita, uma grande virada. O reordenamento do tempo e dos espaços escolares em um lugar próprio para a escolarização da infância, entre outros elementos concernentes à “cultura material”, são todos signos que evidenciam a realização máxima da racionalização empreendida e permitem ainda hoje, através dos seus vestígios pensar as práticas, a cultura escolar e a educação que foi ali projetada. Permite, em certa medida e para além do seu tempo, considerar os (des)caminhos da escola primária atual.

Concluindo

Por isso, ao retomarmos hoje outra vez mais o olhar para o tempo de escola, o tempo de aprender, imperioso lembrar que a escola pública brasileira, em especial a relativa à educação fundamental, é uma instituição ainda um tanto quanto recente (século XIX) que busca, apesar de todos os pesares como as referentes à questão salarial do professorado e mesmo das insistentes alterações da prática pedagógica e da organização escolar (que, no caso dos ciclos, tendem mais a complicar do que acelerar o avanço educacional dos nossos pequenos), ampliar as bases para o atendimento da população brasileira para a instrumentalização fundamental a esse amplo mundo de conhecimentos que se tem hoje. Saber ler, escrever e contar é apenas o elementar começo – essencial e necessário para a vida no mundo de várias linguagens como o de nosso tempo presente e o compromisso social e político para a construção de uma cultura e sociedade que se almeja construir. Afinal, se toda educação tem um sentido, uma finalidade específica, um objetivo (ou vários), cabe a cada um de nós, em especial os educadores, pensar o sentido que está sendo posto em prática hoje.
Mais sobre o tema: consulte as coletâneas organizadas por Souza (2007), Gondra (2002) e Monarcha (2001).

Referências

AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira. Introdução ao estudo da cultura no Brasil. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1943.
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CARDOSO, Teresa F. Levy. As aulas régias no Brasil. In: STEPHANOU, M.; BASTOS, M. H. C. (Orgs.). Histórias e memórias da educação no Brasil, vol.1, séculos XVI-XVIII. Petrópolis: Vozes, 2004, p.179-191.
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VIDAL, Diana Gonçalves (Org.). Grupos escolares: cultura escolar primária e escolarização da infância no Brasil (1893-1971). Campinas: Mercado de Letras, 2006.

Adágio africano: ” A borboleta é ave.”


Adágio africano: ” A borboleta é ave.”

Artigos

Manuela Lopes

Moamba


Desde que Joaquim assumira o seu lugar de apontador na estação ferroviária de Moamba, mantinha a mesma rotina, levantando-se de madrugada, sendo um dos primeiros a chegar ao escritório, não por escolha mas porque os deveres assim o obrigavam. Criteriosamente, dispunha os objectos sobre a secretária e conferia os apontamentos do dia anterior. Depois aguardava a chegada do resto do pessoal. Aquela hora quase não havia movimento na estação: meia dúzia de passageiros e alguns ociosos. O comboio das sete, sempre pontual, chegava com grande comoção, os freios rangendo e o rodado dos carris lançando faíscas. Pela hora do almoço, depois de uma refeição frugal, fumava um cigarro e cavaqueava com o chefe da estação, retomando o trabalho até às quatro ou cinco conforme o expediente. Ao sol-posto, a vila encerrava o comércio. Após um exaustivo dia de trabalho, o português habituara-se a receber a visita dos mestiços e africanos com quem estabelecera amizade, num vivo contraste com a mentalidade racista que se impunha. Ao serão, em sua casa, os amigos reuniam-se para uma jogatina de cartas. Discutia-se política e outros assuntos. Lá estavam Serafim Mapunga, um mulato membro da Associação Africana, uma organização que derivara do Grémio Africano, (fundado em 1918), o engenheiro de minas Goês Luís Rodrigues e dois intelectuais moçambicanos, Marco Toqueleque e Lourenço Tembe. Este último, um Tsua nascido em Mucoque uma povoação a norte de Vilanculos, exercia funções no “O Emancipador”, um pasquim que surgira em 1925, ano em que se registara a prisão de 300 trabalhadores na sequência de uma greve geral em Lourenço Marques, (actual Maputo) e da qual só os mais velhos tinham lembranças. A consciência de que o novo estado colonial continuava a marginalizar a maioria da população moçambicana, estimulava uma forte veia de radicalismo nos círculos mestiços da capital, constituídos maioritariamente por intelectuais. Ao contrário de exigir o seu fim, estes pretendiam apenas reformular o sistema, de modo a que o estado colonial fizesse jus aos ideais proclamados de assimilação, civilização e progresso. Acendendo um cigarro, Lourenço Tembe destacava a falta de oportunidades de educação e a questão da mão-de-obra forçada, assunto que inflamava fortemente o debate sobre a política portuguesa. - Vive-se num estado polícia encabeçado por Salazar! As suas políticas não são mais que uma fachada para as grandes corporações económicas, onde a liberdade nos é completamente negada - afirmava - O povo está reduzido à pobreza, à escravidão e a censura é usada para abafar a toda e qualquer oposição política! Joaquim ligou o rádio, procurando uma estação próxima. Uns acordes nostálgicos duma guitarra portuguesa e logo depois, a voz do fadista encheu a sala. Perguntou se alguém bebia alguma coisa. Marco Toqueleque comentava que, apesar da aparente tomada de consciência dos abusos do regime anterior, o xibalo,(expressão de sentido pejorativo, sinónima de escravo, que derivava de ku-bala, que significava escrever, uma vez que os trabalhadores dependiam apenas da simples anotação do capataz para serem aceites). Sob o eufemismo de “contratados”, a mão-de-obra braçal, ainda permanecia. A a maioria dos moçambicanos era forçada a trabalhar nas obras públicas, conquanto isso beneficiasse a comunidade. - É apenas uma maneira disfarçada de perpetuar a escravatura! - protestava vivamente. Luís Rodrigues, saboreando um licor, acrescentou que a nova legislação de pouco ou nada tinha servido e que a famosa “Carta Orgânica”, que pretensamente procurara garantir a autonomia financeira e a descentralização administrativa em Moçambique, era em si própria uma contradição, pois só a Assembleia Nacional detinha o poder. Perante um país fragmentado não só na administração mas também no desenvolvimento económico e nas infra-estruturas, Joaquim perguntava-se se não seria necessário mais do que uma carta para mudar a situação de iminente desintegração. - O mais extraordinário é que tendo em conta a expansão da economia e da administração colonial, existam tão poucos moçambicanos especializados nos sectores modernos deste país - constatava Toqueleque, prosseguindo - Os portugueses ocupam a maioria dos cargos baixos na estrutura colonial como fiéis de armazéns, escriturários e mecânicos, limitando não só as oportunidades dos africanos, como também a classe mestiça de entrar no sistema. Joaquim estava convicto que a culpa era da administração que dificultava o acesso dos africanos ao estatuto de “não-indígena”, sendo para isso necessário demonstrar um certo grau de educação. - Lamentavelmente - acrescentou, em resposta às declarações de Toqueleque - muito poucos adquirem esse estatuto. Só alguns que, por algum motivo são necessários... Serafim Mapunga afirmava que a raiz do problema residia no facto da educação chegar apenas a uma parte muito reduzida da população. - Os regulamentos de 1929 dividiram o ensino primário em “elementar”, destinado aos “não-indígenas” e “rudimentar”, destinados aos “indígenas” - dizia - Teoricamente estes últimos não permitem o acesso à formação técnica. Da rua vinham murmúrios e sons abafados. Joaquim espreitou por entre os cortinados. Embora fossem apenas alguns foliões que dessem vazão a sua alegria, já a polícia surgira inesperadamente dispersando os noctívagos. Qualquer manifestação pacífica, mesmo autorizada, era considerada rebelião pela polícia do regime.

domingo, 7 de março de 2010

A Poeta Cora Coralina

Artigos

Ianê Rubens de Mello

Breve Histórico


Nasce em Goiânia, em 10 de abril de 1985, Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, depois conhecida como Cora Coralina.Poeta e contista brasileira, que antes de ter sido descoberta era uma mulher muito simples, doceira por profissão.Viveu sempre longe dos centros urbanos, produzindo uma obra poética muito peculiar, totalmente alheia a modismos literários. Obra essa, fartamente rica em características do cotidiano do interior brasileiro, particularmente dos becos e ruas históricas de Goiás.Começou a escrever seus textos aos quatorze anos de idade, publicando-os nos jornais locais.Na verdade, ela possuía pouca escolaridade, tendo cursado apenas as primeiras quatro séries do ensino fundamental. Nessa fase, publicou seu primeiro conto Tragédia na Roça.Quando casou-se, em 1910, foi viver em São Paulo, onde vivera por quarenta e cinco anos. Com a morte de seu marido, passou a vender livros. Ao mudar-se para Penápolis, no interior do estado, passou a produzir e vender lingüiça caseira e banha de porco. Mudou-se em seguida para Andradina, retornando para Goiás.Com cinqüenta anos de idade, Cora Coralina, resolve assumir definitivamente seu pseudônimo, escolhido há anos atrás. Ela relata grande mudança interior, o que a fez perder o medo de assumir seu talento.


Sua obra


Os elementos de seu cotidiano, sua origens humildes e interioranas foram fonte de inspiração para que cada vez mais ela se tornasse uma expressão de qualidade literária jamais vista por outro poeta do Centro-oeste brasileiro.A simplicidade de sua escrita, vez que desconhecia as regras gramaticais, valorizou a mensagem ao invés da forma, sendo uma escrita de grande força e pungência.Sua poesia tornou-se conhecida em todo o Brasil através do grande poeta Carlos Drummond de Andrade.Seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás, foi publicado quando ela completou seus 75 anos de idade. Com essa publicação, ela é consagrada como uma das maiores poetisas da Língua Portuguesa do século XX.Onze anos mais tarde, em 1976, compôs Meu Livro de Cordel. Finalmente, em 1983 lançou Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha (Ed. Global).Foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escitores em 1983.Dois anos mais tarde, veio a falecer. Logo após sua morte, amigos e parentes uniram-se para criar a Casa de Coralina, que mantém um museu com objetos da escritora.


Alguns de seus poemas


NÃO SEI...

Não sei... se a vida é curta...

Não sei...
Não sei...

se a vida é curta
ou longa demais para nós.

Mas sei que nada do que vivemos
tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.


O cântico da terra


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.

De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.

Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.

Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante

a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho, do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio felizes seremos.


Assim eu vejo a vida


A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Sobre Che



Ponto de vista
Robson Lemes
Universitário de historia
Rio grande sul


Nasce Ernesto Guevara de La Serna, o menino asmático, o jovem despreocupado, o leitor ávido e aprendiz nato. O frio, a fome, a sede, eram apenas conseqüências, o que valia era a descoberta, o sacrifício para ver o máximo que a natureza podia oferecer.

Nasce o sentimento, não reconhecido de imediato, a injustiça contra o proletariado latino americano visto a olho nu pelo jovem Ernesto, a exploração tanto da terra como das carnes do povo latino, faz o sonhador descobrir que tem uma missão e parte em busca de respostas.

Nasce o médico parte em busca do que não vê, não entende, mas sabe que é preciso ir. Vê a revolução nua e crua, mas ainda é um feto, não tem forças, apenas assisti, algumas vezes com deleite, outras com indignação, mas é ali que reconhece a face do inimigo, não sabe como lutar, mas sabe contra quem lutar: o imperialismo.

Nasce o revolucionário, implacável, insensível, justo e disciplinado, parece encontrar o caminho, não esta mais sozinho. Força, coragem, determinação, é a revolução, o ápice, vitória, é a semente lançada em solo fértil, sua missão cumprida, mas o verdadeiro revolucionário é aquele que vai além, onde ninguém ousou.

Nasce o guerrilheiro, incansável, convicto, que doa seu sangue sem pedir nadas em troca, que entrega os pulmões asmáticos a revolução, buscando um amanha justo e igualitário. Deixa sua marca na frente dos protestos, no peito do rebelde, na esperança do amanhã, na vontade de quem não ousa. Cercado, morto, enterrado. Matam o homem.

Nasce o mito.

OS TOLOS, OS VIGARISTAS E AS PESSOAS DE BEM

Ponto de vista - Artigo
OS TOLOS, OS VIGARISTAS E AS PESSOAS DE BEM

Leandro de Castro Siqueira
Mestre em Ecologia pela Universidade de Brasília - UnB

Quando se assiste a debates cuja temática é o meio ambiente, já se tornou corriqueiro ouvir que nessa área as pessoas se dividem em três tipos: os tolos, os vigaristas e as pessoas de bem. Essa expressão passou a ser repetida regularmente para fundamentar as posições de quem a usa, independente de quais argumentos essa pessoa defenda. Uma reflexão sobre esse tema talvez seja bem útil no debate sobre a questão ambiental. Quem seriam os tolos, os vigaristas e as pessoas de bem?
Nas discussões sobre meio ambiente, invariavelmente todos se apresentam como sendo as pessoas de bem. Suas motivações e seus anseios são sempre os mais nobres, verdadeiros e, claro, voltados para o bem comum, principalmente dos mais carentes e vulneráveis. Todos aqueles que apoiam suas idéias são consideradas também pessoas de bem. Já os adversários seriam os vigaristas, cujos pontos de vista são apresentados como sórdidos, corrompidos, desfundamentados e dissimulados, pois representariam interesses de agentes poderosos e ocultos. Os tolos seriam todos aqueles que, sem perceber os motivos torpes dos vigaristas, apoiariam esses últimos por ingenuidade e ignorância. Numa estrutura como essa, todos poderiam ser considerados como tendo o papel de pessoas de bem, de vigaristas ou de tolos, dependendo de quem estiver atribuindo o título. Seria bem difícil chegar a algum lugar assim, não? Essa é uma das razões pelas quais o tratamento das questões ambientais é tão complicado.
Achar que o ponto de vista próprio é o único legítimo, nas situações em geral, e não só nas que envolvem o meio ambiente, cria impasses, os quais demoram para ser resolvidos, quando o são. Mas quando se estabelece o diálogo verdadeiro e se busca assimilar e compreender a perspectiva das demais partes, a solução tende a ser mais rápida e até eficiente.
Uma das razões por que as soluções costumam ser mais rápidas com o uso do diálogo, em vez do conflito, é que os objetivos de cada parte, que podem não estar claros no começo das negociações, passam a ficar explícitos. Dessa forma, os argumentos contrários podem ser objetivamente contestados e negociados, sendo possível até mesmo encontrar objetivos comuns. Todos cedem um pouco e, ao mesmo tempo, têm parte de suas demandas acolhidas. A solução nesses casos tende a ser mais efetiva, já que se leva em consideração o problema sob vários enfoques diferentes, isto é, de forma mais completa. Com esse procedimento, os interessados em buscar soluções para os problemas ambientais percebem que pode haver pessoas de bem como adversários, e que essas pessoas podem ter argumentos interessantes e importantes.
Esse procedimento também permite perceber quando se está lidando com os vigaristas, cujo interesse é que o problema ambiental não seja realmente resolvido. Eles tentam passar a imagem de que estão negociando de modo firme, enquanto escondem sua inflexibilidade, arrogância e falta de cooperação. Ao mesmo tempo desqualificam seus adversários, anunciando que os mesmos é que não estão dispostos a ceder, que seus interesses são condenáveis, etc. Quando seus adversários estão mais frágeis, os vigaristas podem conseguir impor seus objetivos. Quando ambas as partes têm poderes equivalentes na negociação, essa tática cria resistência, e o resultado é o impasse, o que muitas vezes beneficia os interesses dos vigaristas. De qualquer forma, o resultado é insatisfatório para efetivamente dar uma solução ao problema ambiental.
Quanto aos tolos, aqueles que adotam a ideologia que lhes é apresentada e a defendem sem ter consciência dos reais interesses envolvidos, esses sempre existiram e sempre existirão. Eles são a massa de manobra dos atores que têm o poder para disseminar e impor seus sistemas de idéias, seja por meio de instituições e organizações, seja pelos dos meios de comunicação. E o pior é que muitas vezes até nós mesmos não temos noção do quanto nosso modo de agir e de pensar sofre esse tipo de influência.
Felizmente, um dos antídotos capazes de atenuar esse problema é a informação, o que atualmente é possível obter de forma bem mais fácil que no passado. A democracia no acesso à informação produzida pela Internet faz com que os vários pontos de vista relativos a um assunto possam ser divulgados de forma plural e sem censura. Dessa maneira, evitam-se os obstáculos gerados pela influência dos poderes político, econômico e até mesmo religioso sobre os meios de comunicação tradicionais como jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão.
Entretanto, é indispensável o uso de altas doses de discernimento para avaliar as informações a que se tem acesso. Como todos podem expressar suas ideias, as informações legítimas encontram-se lado a lado com uma grande quantidade de bobagem e de informações distorcidas cujo objetivo é desorientar. Nem mesmo as informações provenientes de meios acadêmicos são totalmente confiáveis, já que também podem apresentar tendenciosidade decorrente dos vários tipos de influência a que estão passíveis.
A influência dos vigaristas sobre a massa de ingênuos é perniciosa ao meio ambiente. Cabe ao terceiro tipo de pessoas desse conjunto, as pessoas de bem, mesmo defendendo interesses distintos, e muitas vezes contraditórios, combater essa ação nociva por meio do diálogo e a coordenação de esforços. A união dos vários atores interessados na efetiva resolução dos problemas ambientais é capaz de amplificar o alcance das soluções encontradas, ao mostrar para o grande público que é possível, por meio do diálogo e entendimento mútuo, produzir efeitos satisfatórios na área ambiental. Além disso, essa abordagem no tratamento das questões relacionadas com o meio ambiente tem o mérito de explicitar quem são realmente os tolos, os vigaristas e as pessoas de bem.

Aqui jaz, as mãos invisíveis do mercado


Artigos
Lilian Ribeiro de Lima
Graduanda em Ciências Sociais pela UNESP

Aqui jaz, as mãos invisíveis do mercado
A experiência democrática tal qual se erigiu nos países subdesenvolvidos ao longo das últimas décadas do século XX, deixa marcas profundas na realidade e composição atual do cenário estrutural por todos seus quilômetros percorridos desde a América Central, visitando o Caribe e prolongando-se até o Cone Sul. Demonstrando contradições claras às imposições do receituário liberalizante sugerido pelos capitalismos centrais, bem como suas extensões financeiras responsáveis por romper fronteiras nacionais, finalidades inerentes às ditas benesses da globalização; o desenvolvimento sócio-econômico e a estabilidade política, converteram-se para os latinos em seus extremos opostos, tal como nominalmente periferia opõe-se diretamente ao centro. Neste contexto, a maximização do mercado em consonância à minimização do Estado, atinge o ápice das contradições e insatisfações ao modelo político democrático vigente na América Latina, anunciando perspectivas alarmantes de uma inadequação, que revela sua verdadeira faceta e efetiva constatação de reivindicações alternativas.
Guiados pelas mãos invisíveis do mercado, sob a égide da ideologia liberal, as antigas colônias européias adentraram no abismo de um retrocesso social sem precedentes, evidenciado por desigualdades sociais que lideram o ranking mundial, extrema pobreza e lacunas profundas entre a esfera pública e a sociedade civil, rompendo em definitivo com os verdadeiros fundamentos do Estado de Direito.A supervalorização das funções do mercado expressa através da desregulamentação e privatização de abrangentes esferas da vida, traz em si a polarização da liberdade civil. Entrelaçam-se, assim, sob o mesmo tecido social pontos esparsos de cidadãos livres para desenvolver suas capacidades humanas, em detrimento da predominante presença de cidadãos desabilitados e alijados das condições necessárias para coexistir sob a lógica competitiva suscitada pelo sistema capitalista.
O modelo político verdadeiramente democrático baseado na igualdade de todos, não somente via instrumentos jurídicos formais, mas de sobre maneira, em possibilidade de acesso a componentes inalienáveis dos cidadãos tais como educação, saúde, informação e seguridade social, reúne as condições vitais capazes de sugerir liberdade individual para o desenvolvimento humano em uma sociedade de classes sob preceitos significativamente mais equânimes. Tais garantias, tão caras à sociedade ocidental moderna e aos princípios fundadores da democracia, trilharam um caminho perverso ao longo dos avanços rumo ao estágio global da economia de mercado, e nesta trajetória o Estado perdeu em funcionalidade, ficando em contrapartida para a sociedade o ganho em desigualdade social, mediante a inexistência de um componente neutralizador e norteador das relações entre interesses econômicos e sociais. De tal forma, segue uma evidente ascensão daqueles que detém as condições necessárias para exercer sua liberdade de mãos dadas ao mercado, em desqualificação da liberdade da expressiva grande maioria dos cidadãos deficientes de tamanha mobilidade de seus membros superiores. Dita em outras palavras esta analogia pode pressupor que, dentre os meandros do caminho guiado pelas mãos do mercado polariza-se o cenário entre protagonistas, que caminham em paralelo à dinâmica do capital, e figurantes alijados de toda sorte do processo de aquisição de requisitos básicos para competir em condições efetivamente igualitárias.
Em capítulos posteriores a este contexto de agigantamento do mercado, é que as famigeradas mãos invisíveis demonstram sua face, anunciando em múltiplas tonalidades e contrastes, que as diferenças compõem o lamentável corolário do mergulho nas ondas da liberalização, e desregulamentação, cegamente aderidas pelos países latino-americanos. A concentração em âmbitos econômicos, sociais e culturais, em benefício do mercado demonstrou ser insustentável uma economia de mercado auto-regulamentada, sobretudo, por romper com os reais valores morais do modelo político democrático.
A rendição e o conformismo não podem configurar a posição da sociedade civil diante dos ditames do mercado em sua ação, por séculos, imperceptível e silenciosa. A realidade desigual clama e possibilita a busca por novas formas de vida democrática, diante das renovações nas estruturas e mecanismo democráticos, nas quais os referendo e plebiscitos representam avanços significativos. A lacuna entre cidadão e poder público, bem como a contradição inerente entre democracia e capitalismo de mercado, pode ser preenchida em prol do desenvolvimento de condições equânimes significativas dentro do jogo capitalista desigual.
A estrutura política verticalizada, que vai desde o poder público, perpassando pelos seus mecanismos de controle, a atuação de partidos políticos, e finalizada na sociedade civil (a ordem não altera o produto), pode reestruturar-se e estabelecer um caminho guiado pelas mãos de todos os cidadãos, sendo estes expressos através dos representantes eleitos, tais como a democracia representativa sugere. As imposições anunciadas pela ideologia liberal, convenceram por longos períodos acerca do fim da história e da impossibilidade de criar alternativas ao modelo político-econômico e social vigente, entretanto, as profundas mazelas restante desse acordo feito às escuras penetram no limiar da crise democrática latino-americana como anúncio de novos tempos.
Eliminar o distanciamento entre Estado e sociedade civil, através do fortalecimento de instituições e mecanismos democráticos, com vistas a derrubar o gigantesco mercado e suas corporações transnacionais das funções as quais fora retirado o candidato mais próximo e eficaz para intervir na esfera pública; o Estado,é imprescindível para reduzir a alarmante polarização da liberdade entre àqueles, que detém os modos de produção e acesso a recursos básicos de subsistência, e aqueles que circundam pelas margens do tecido social e da participação democrática.
O mito do desenvolvimento social e econômico propagado pelas mãos invisíveis do mercado está em vias de ser revertido como possibilidade única, em contexto tal como se dá na total inadequação escancarada nos países latino-americanos. O novo caminho é longo e ser otimista em tempos como estes, por vezes parece antiquado. Contudo, de todos o males o pior; a permanência do crescimento irrefreável das receitas dos grandes conglomerados transnacionais, em face da perpetuação de índices exorbitantes das desigualdades econômicas, extrema miséria e injustiça social, e marginalização do componente principal do modelo político democrático; a esmagadora maioria dos cidadãos.